
Em 07/12/2008 e 14/12/2008 postei, em duas partes, uma pequena biografia do gênio letão Mikhail Tal. Lá, além de comentar grandes momentos da carreira de um dos maiores enxadristas de todos os tempos, publiquei duas partidas brilhantes do mestre. Tal caiu no gosto do público rapidamente: seu estilo era bastante arrojado. Invariavelmente vencia seus adversários jogando partidas de ataque espetaculares, onde toda sorte de sacrifício de peças, correto ou não, poderia acontecer. Foi campeão mundial muito jovem e, como concordam vários comentaristas mais abalizados que eu, só não foi mais predominante devido aos seus problemas de saúde (problemas esses que eram piorados devido à vida boêmia que Tal costumava levar). Simpático, extrovertido e extremamente inteligente, Tal era admirado não apenas pelos fãs de xadrez, mas também pelos seus colegas de profissão.
Em todo esporte, é comum angariar a simpatia do grande público aquele atleta ou equipe ofensiva, que joga “no ataque”. Quantos não se lembram do fenômeno Mike Tyson, que surgiu no boxe em um momento que o mundo não conseguia vislumbrar direito alguém com força suficiente para ser denominado campeão mundial dos pesos pesados no boxe? Ou equipes de futebol ou basquete que todo mundo gostava por jogarem no ataque, abusando da criatividade e da habilidade de seus jogadores para conquistar resultados, de preferência com ampla margem de gols ou pontos? Bom, no xadrez não é diferente. Creio que há um número muito maior de fãs para jogadores de estilo mais ofensivo e complexo do que para jogadores que empatam e “ganham quando não há risco de perder”. Tal é um exemplo de nocauteador no esporte das 64 casas; seu estilo impetuoso fez várias vítimas e, não obstante, agradou e influenciou jogadores de todos os níveis no decorrer dos anos seguintes. Abaixo, vamos conferir alguns nocautes de Mikhail Tal, onde arrebentava seus colegas GMs como se fossem jogadores frágeis de clube:


Tal X Timman - Skojpe, 1972
Na posição acima, a posição das pretas parece bastante segura e até mesmo melhor: Timman tem um peão a mais e, apesar de estar um pouco mais passivo, a primeira vista não parece haver uma maneira clara de vencer. No entanto, o jogo seguiu assim:
1.Txe5 fxe5 2.Cg5 Bf6 (se as pretas jogam 2. ...Dc8, seguiria 3.Bxg7 Rxg7 4.Dxh7+ Rf6 {4. ...Rf8 5.Dh8+ Bg8 6.Dh6 xeque-mate} 5.C5e4 xeque-mate)
3. Cxe6 Dc8 4.Dg4 Td6 5.c4 Cf4 6.c5 Txe6 7.Bxf4 e as brancas vencem.

Tal X Devski - Moscou, 1961
Na posição acima, Tal, o homem sem medo, sacrifica sua dama e gera um ataque espetacular:
1.e6 dxc3 (a dama já era)
2.exd7 Bg7 (a posição branca parece perdida: dama a menos, torre branca em h1 prestes a ser capturada, o bispo em g7 entrou ativamente em jogo. Só que o oponente de Devski chama-se Mikhail Tal)
3.Cxc7 Df3 (colocando a dama fora do ataque a descoberto do bispo em h3)
4.Cd5+ Ra8 5.Bg2!! Dxf2 (Você deve ter se perguntado: por que Devski não capturou o bispo em g2? Porque o mago de Riga calculou mate em oito! Não acredita? Acompanhe: 5. ...Dxg2 6.Cc7+ Rb8 7.Ce8+ Ra8 8. d8=Dama+ Cc8 9.Dc7 Be5 10.Dxe5 Cd6 11.Dxd6 Txe8 12.Txe8+ Bc8 13.Db8 xeque-mate!)
6.Txe7 Bc6 7.Te8+ Txe8 8.dxe8=Dama+ Bxe8 9.Cxb6 xeque-mate. Um final com pura feitiçaria! (Veja o diagrama final abaixo):


Vai que é sua, Tal!

Tal X Unzicker - 1966
A posição está materialmente equilibrada mas com alguns detalhes: a dama preta de Unzicker está em uma posição pouco invejável, e a coluna “c” é propriedade total de Tal. No entanto, a posição do monarca negro parece bastante segura. Como Tal pôde vencer em uma posição assim?
1.Bxf7+! Rxf7 2.Db3+ Rf8 (Se 2. ...Rg6 seguiria 3.Ch4+ Rh5 4.Df3+ Rxh4 5.Rh2 Cxe4 6.Dg4 mate)
3.Cg5 Cd5 4.exd5 Cc5 5.T1xc5 Bxc5 6.Df3+ Rg8 7.Df7+ Rh8 8.Th6!! (amazing!) Bxf2+ 9.Rh1 gxh6 10.Dxh7 mate. Absolutamente incrível.
Espero que tenham gostado do post, até o próximo!


































































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